A Arnecke passa por um momento de ajuste, realinhando sua direção. A retomada à simbologia do número 8 com um novo olhar sobre uma ideia inicial, agora trabalhada com mais clareza e intenção e outros olhares.
Esse movimento ajuda a organizar melhor os próximos caminhos. Decisões que antes ainda estavam em construção ganhando uma melhor forma, enquanto novas referências e camadas de linguagem entram de maneira mais consciente.
Um passe mais certeiro. Uma continuidade que se estrutura melhor e aponta com mais precisão para o que vem pela frente.
Circle Numbers se orienta por três direções que conduzem a investigação ao longo do exercício. A relação entre número e posição no futebol aparece como um dos eixos centrais, observando suas implicações dentro do jogo e das formas como se estabelece.
Em paralelo, entra o estudo das tipografias, considerando suas variações formais, estruturais e contextuais dentro do universo esportivo.
Por fim, o recorte se estende aos uniformes de viagem em dias de jogo, direcionando a investigação para as relações entre moda e futebol nesse contexto, especialmente nas estratégias de apresentação e associação entre marcas, clubes e jogadores, assim como na construção de uma identidade individual por meio do vestir.
Dando continuidade a essa reflexão, adota-se aqui uma leitura construída ao longo da pesquisa: a de que existe uma conexão latente entre identidade e a posição escolhida pelo indivíduo em campo, menos ligada ao desempenho técnico e mais à escolha inicial, quase intuitiva, que tende a refletir afinidades com as funções exercidas.
No futebol, cada posição tática se organiza a partir de atribuições historicamente consolidadas. O goleiro atua sob uma lógica de proteção e vigilância, observando o jogo de uma perspectiva isolada e reagindo em momentos decisivos. Os zagueiros operam na contenção e no confronto direto; os meio-campistas articulam e equilibram o jogo; enquanto os atacantes concentram a expectativa da finalização. Nesse contexto, a posição passa a sugerir formas distintas de atuação: organizar, proteger, decidir.
Essa estrutura, embora funcional, também pode ser lida como uma metáfora das formas de ser e agir socialmente. A recorrência desse pensamento encontra respaldo em investigações teóricas e leituras que ampliam essa compreensão. Nesse sentido, destaca-se a obra O Futebol ao Sol e à Sombra, de Eduardo Galeano, especialmente no capítulo “O goleiro”, no qual o autor sintetiza essa dimensão simbólica ao afirmar que o jogador “está condenado a olhar a partida de longe”, permanecendo “sozinho, entre as três traves”, carregando consigo uma posição marcada pelo isolamento, pela responsabilidade e pela inevitável exposição ao erro.
Complementarmente, essa construção também se manifesta no campo jornalístico. Na matéria de Alexandre Alliatti para o especial da Globo Esporte durante a Copa do Mundo FIFA 2014, no projeto “Jogo de Amarelinha”, o camisa 8 é descrito como “uma testemunha ocular de tudo que todos fazem. Vê melhor que ninguém. Vê mais que qualquer um.” — alguém que não se fixa em um ponto, mas percorre o jogo, acompanha seus desdobramentos e está em todos os lances.
A partir dessas leituras, observam-se também padrões recorrentes associados aos números. O camisa 5, por exemplo, historicamente é associado à força, disciplina e sustentação do jogo, conectando defesa e meio-campo, o famoso cão de guarda. Jogadores como, Dinho e atualmente Casemiro pela seleção brasileira, ajudam a consolidar esse imaginário. Ainda assim, o futebol contemporâneo tensiona essas definições, tornando os papéis mais fluidos e menos rígidos.


Nesse ponto, a relação entre jogadores, torcedores e números reforça esse laço. A escolha de um número que os identifique, seja dentro de campo ou nas arquibancadas, faz conectar jogador e torcedores, de maneira individual para coletiva, funcionando como um signo compartilhado.
Para nos aprofundarmos, é importante compreender a origem da numeração no futebol. Sua introdução remonta ao início do século XX, com registros como os jogos de 1928, quando Chelsea FC e Arsenal FC utilizaram números em suas camisas, permitindo que o público identificasse melhor os jogadores em campo. A prática, no entanto, só foi oficializada anos depois, consolidando-se como padrão organizacional. Inicialmente vinculados rigidamente às posições (1 a 11), os números foram, ao longo do tempo, se desvinculando dessas funções, abrindo espaço para interpretações mais livres e pessoais.

Foto em exposição no Design Museum of Football (London). H F Davis, 1933. Courtesy of H F Davis/Topical Press Agency/Getty Images.
É justamente nesse deslocamento que a tipografia tem seu protagonismo. Os números não são somente para serem legíveis e sim expressivos. O desenho tipográfico carrega as marcas de cada época, contexto e identidade visual. Certas fontes tornam-se tão características que permitem reconhecer na tipografia o jogador e a temporada daquele uniforme, sendo a camisa em um documento visual.

Real Madrid typeface 2011/12

Antony Barnett para Sporting iD, 2011
O designer Antony Barnett foi responsável por desenvolver um grande número de tipografias ao longo de sua atuação no universo gráfico do futebol, com trabalhos realizados para clubes como Real Madrid, Liverpool FC, Manchester United, Fenerbahçe SK e também para a Seleção Italiana de Futebol, entre outros.
Ainda que suas criações sejam amplamente reconhecíveis, sobretudo para quem observa com atenção os códigos visuais do esporte, a autoria desses projetos raramente é explicitada. Isso ocorre porque, de modo geral, as fabricantes de material esportivo não costumam creditar individualmente os designers envolvidos no desenvolvimento dessas tipografias
Essa dimensão se expande quando observamos as padronizações institucionais. Ligas como a Premier League estabeleceram tipografias próprias, criando uma identidade visual consistente e reconhecível, que influenciou diversas outras competições. Por outro lado, em torneios internacionais, as tipografias são frequentemente desenvolvidas pelas marcas esportivas.
Em momentos específicos, como amistosos ou colaborações, clubes exploram ainda mais esse potencial. O Paris Saint-Germain é um exemplo recorrente dessa articulação entre moda e futebol, utilizando tipografias e peças especiais.


Assim como o uniforme de jogo concentra uma carga simbólica estruturante, o uniforme de pré-jogo — ou de viagem — assume protagonismo no futebol contemporâneo. Popularizado em competições como a UEFA Champions League, ele marca a entrada do clube no estádio ou também no aeroporto como visitante. Trata-se de uma vestimenta que integra uma estratégia de posicionamento: funciona como ponto de contato entre clubes e um público ampliado, permitindo que marcas de moda se conectem a audiências globais por meio do futebol.
Parcerias como a do AC Milan com a Off-White ilustram essa transformação. Nesse cenário, o uniforme de viagem se consolida como uma extensão narrativa do clube, comunicando valores, construindo imagens e posicionando a marca em um campo cultural.
Essas colaborações evidenciam, por um lado, a flexibilidade do futebol como plataforma cultural e, por outro, indicam um processo de ressignificação do próprio luxo, que passa a operar em diálogo direto com o esporte.
A aproximação entre grifes e clubes, portanto, não se reduz a uma operação de marketing, mas como uma estratégia através de simbologias. O futebol oferece à moda aquilo que ela historicamente busca: narrativas atravessadas por emoção, legitimidade cultural e acesso a comunidades amplas e diversas. Em contrapartida, essas parcerias atualizam os códigos visuais das marcas e reposicionam os clubes como agentes culturais. Como aponta o relatório Luxury 3.0, da Highsnobiety, “[...] o novo luxo não é definido por tradição, mas por ressonância e relevância”
Nesse sentido, vestir um clube de futebol é um gesto cultural de alto impacto, capaz de condensar autenticidade, engajamento emocional e valor simbólico. A audiência dessas colaborações extrapola o universo do torcedor tradicional e atinge um público jovem, cosmopolita e orientado por identidade. Como destaca o relatório Navigating What’s Next, observa-se uma transição da autoridade para a autenticidade, na qual marcas que compartilham valores culturais com suas comunidades se tornam mais relevantes do que aquelas que apenas operam por status.